Lula deu entrevista ao vivo no canal de YouTube Meteoro Brasil e tratou das urnas…

Governo Trump revoga visto de embaixadora do Brasil
Itamaraty contesta justificativas e afirma que decisão integra escalada contra o Brasil
O governo dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em um movimento que elevou o tensionamento entre os dois países.
A decisão, anunciada nesta terça-feira (4) pelo Departamento de Estado americano, foi confirmada pelo Itamaraty e, logo após, repudiada pelo governo brasileiro em nota oficial.
A medida ocorre em meio a um impasse diplomático envolvendo a aprovação do novo embaixador dos EUA no Brasil e a negativa de vistos a dois funcionários do governo Trump.
Justificativas dos EUA para negar o visto à embaixadora do Brasil
O governo americano apresentou três argumentos principais para justificar a revogação do visto da embaixadora brasileira.
O primeiro é o impasse na nomeação do novo embaixador. Segundo o Departamento de Estado, os EUA mantiveram contato contínuo com autoridades brasileiras durante semanas para tentar destravar a aprovação de Daniel Perez, deputado estadual da Flórida indicado por Donald Trump em 1º de junho para o cargo.
O indicado é Daniel Perez, deputado estadual da Flórida e aliado do secretário de Estado Marco Rubio. Trump anunciou seu nome em 1º de junho, mas o governo brasileiro ainda não havia concedido a anuência necessária para que ele assumisse o posto diplomático.

Uma fonte do governo americano afirmou à colunista Priscila Yazbek, da CNN, que “demos ao governo brasileiro todas as oportunidades para fazer a coisa certa, mas ele continuou adiando e dificultando o processo”.
O segundo argumento é a reciprocidade. Os EUA classificaram a revogação do visto como uma resposta às restrições impostas pelo Brasil a diplomatas americanos.
Em 24 de julho, o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado — Riley Barnes e Samuel Samson — que planejavam visitar o Brasil. Conforme revelou o jornal The Washington Post, eles tinham planos de preparar um ataque à confiabilidade das urnas e do sistema eleitoral brasileiro.
O terceiro argumento está vinculado à política “America First”. O funcionário do governo americano afirmou que o presidente Trump está montando uma “equipe diplomática ‘America First’” em toda a sua administração e que “rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos”.
A fonte ressaltou ainda que a medida “não é uma declaração de persona non grata”, mas que “outras opções diplomáticas continuam sobre a mesa caso o governo brasileiro siga atrasando ou se recuse a conceder o agrément”.
A versão brasileira e a reação do governo
O governo brasileiro reagiu com duras críticas à decisão americana. Em nota oficial, o Itamaraty repudiou a medida e classificou como falsas as duas justificativas apresentadas pelos EUA.
O principal ponto da discordância brasileira está no rito diplomático. Segundo fontes do governo, Washington atropelou o procedimento previsto na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas ao anunciar publicamente o nome de Daniel Perez antes de apresentar o pedido formal de agrément ao Brasil.
Tradicionalmente, a nomeação de um embaixador só é anunciada após o país anfitrião sinalizar que aceita a indicação. No caso de Perez, o pedido de aval foi feito ao governo brasileiro mais de duas semanas após o anúncio da indicação pela Casa Branca.
O Brasil também rebateu o argumento sobre prazo para concessão do agrément. O governo afirma que não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para essa aprovação e que o pedido norte-americano ainda se encontra em análise.
Sobre a negativa de vistos aos dois funcionários americanos, o Itamaraty sustenta que eles planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em uma tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.

O governo brasileiro também lembrou que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras impostas pelos EUA, notadamente o cancelamento de vistos, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo. O presidente Lula, em visita a Washington em maio, já havia solicitado a Trump o levantamento dessas sanções.
Repercussões e bastidores sobre a negativa do visto
O clima no Itamaraty é de indignação. Diplomatas brasileiros classificaram a decisão como “chantagem”, segundo reportagem do blog do Valdo Cruz no G1.
Uma fonte diplomática disse que os Estados Unidos “tratoraram a Convenção de Viena” e que, depois, falam em “fazer a coisa certa”. Na visão das fontes diplomáticas, revogar o visto da embaixadora é uma medida que foge ao tratamento tradicional. Em vez de seguir os mecanismos previstos pela convenção, como declarar a diplomata persona non grata, se fosse o caso, os EUA teriam adotado uma medida inédita ou pouco usual.
Nos bastidores, a avaliação é que a revogação do visto tem como objetivo pressionar o governo brasileiro a conceder o agrément a Daniel Perez. Interlocutores do Palácio do Planalto também questionam o momento escolhido pelo governo Trump para pressionar pela nomeação.

Segundo essas fontes, durante todo o período em que a embaixada dos EUA em Brasília esteve sem um embaixador — desde janeiro de 2025 — a Casa Branca não demonstrou preocupação com a demora.
Diplomatas ouvidos pelo governo afirmam que a indicação de Perez não deverá ser rejeitada por motivos ideológicos, mas ressaltam que o Brasil seguirá o procedimento adotado em casos semelhantes. A análise incluirá o histórico do indicado e eventuais manifestações públicas ou condutas incompatíveis com a função diplomática. A tendência é que o agrément não seja analisado antes das eleições presidenciais de outubro.
Nota do Governo Brasileiro sobre o visto da embaixadora
Leia, na íntegra, a nota do Governo Brasileiro em reção à alteração do visto da embaixadora do Brasil nos EUA.
NOTA À IMPRENSA – 4 DE AGOSTO DE 2026
Nota em reação à decisão dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington
O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.
As duas justificativas apresentadas são falsas.
O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro.
O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.
Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.
Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.
O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.

A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.
Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.
Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
Quem é a embaixadora Maria Luiza Viotti
A nomeação da diplomata Maria Luiza Ribeiro Viotti para o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos foi aprovada em sessão plenária em 2024. A mensagem de indicação (MSF 9/2023) de Maria Luiza Viotti, primeira mulher indicada ao cargo, recebeu 44 votos favoráveis, 1 contrário e 1 abstenção.
Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza Viotti tem 72 anos. Ela ingressou na carreira diplomática em 1976 e graduou-se em Ciências Econômicas pela Associação de Ensino Unificado de Brasília em 1978. Concluiu também os cursos de Aperfeiçoamento de Diplomatas (1982) e Altos Estudos (1995). É mestre em economia pela Universidade de Brasília (UnB).
Maria Luiza exerceu diversos cargos no Ministério das Relações Exteriores, entre os quais se destacam o de diretora do Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais, de 2004 a 2006; e o de diretora do Departamento de Organismos Internacionais, de 2006 a 2007.
No exterior, a diplomata foi, entre outros cargos, conselheira na embaixada do Brasil na Bolívia; embaixadora-representante permanente na Organização das Nações Unidas (ONU) de 2007 a 2013 e embaixadora do Brasil na Alemanha de 2013 a 2016. Entre 2017 e 2022, chefiou o gabinete do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Fonte: Agência Senado


Comments (0)