Indicado pelo candidato do PL ao Ministério da Saúde diz que não colocaria “mais dinheiro”…

Usuários do Farmácia Popular temem cortes no programa com Flávio Bolsonaro
Além de medicações, famílias recebem fraldas geriátricas. Jair Bolsonaro já tentou cortar orçamento do programa
Durante o governo de Jair Bolsonaro, em 2023, o programa Farmácia Popular sofreu ataques com a proposta de um orçamento 60% menor, que não foi aprovado no Congresso devido à pressão de movimentos sociais. Apesar de não ter falado diretamente que vai acabar com o programa, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou que, se eleito, pretende mudar a Constituição.
Essa decisão poderia impactar o orçamento das pastas de Saúde e Educação. Além disso, faz parte da promessa de campanha de Flávio Bolsonaro cortar R$ 200 bilhões nas despesas públicas. Saiba mais em TVT News.
Farmácia Popular: fraldas e remédios

Em 2012, o marido da publicitária Bárbara Bijos Maués, 48, sofreu um acidente durante um mergulho no rio Tapajós, no Pará. Ele teve uma lesão medular e precisou ser operado em um hospital público em Santarém. O SUS (Sistema Único de Saúde) esteve presente em todo o processo, inclusive, na transferência dele para São Paulo em um avião. Além disso, o sitema público de saúde forneceu cadeira de rodas e cadeira de banho.
Atualmente, aos 50 anos, ele tem atendimento multidisciplinar em casa fornecido pela UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro onde mora, na zona Sul de São Paulo. “Na UBS, eu pego sonda, gás e soro, material de curativo, sondagem, fralda. A gente tem uma assistência que faz muita diferença, porque o custo fora tudo isso, ainda é muito alto”, contou Bárbara.
Ela relata que, sem o SUS, só de plano de saúde gastaria ao menos R$ 2000 por mês, sem contar as fraldas, materiais e medicamentos. Além de itens da Farmácia Popular, ele tem acesso a medicações da Farmácia de Alto Custo, como Gabapentina.
Bárbara tem medo de que com o governo de Flávio Bolsonaro, o SUS e o Farmácia Popular sejam atacados. “Eu acho lamentável quem não acredita nisso, sabe? Eu acho que as pessoas não leram os planos de governo, não fizeram uma comparação mínima […] a gente já viveu isso na pandemia, então não é só ameaça. Para quem acha que tem plano de saúde e não usa o SUS, tem que lembrar que tem da vigilância sanitária, distribuição de filtro de água, vacina”.
A construção do programa
A vice-presidenta da Fenafar (Federação Nacional dos Farmacêuticos), Débora Raymundo Melecchi, explica que o programa Farmácia Popular veio como uma demanda direta do presidente Lula, na perspectiva, não apenas de dar o acesso mais facilitado a quem precisa de medicamentos, mas de garantir um acesso vinculado à Política Nacional de Assistência Farmacêutica.
Durante o governo Lula, em 2003, foi realizada a primeira Conferência Nacional de Medicamentos e Assistência Farmacêutica junto ao controle social, que culminou, em maio de 2004, na reunião ordinária do Conselho Nacional de Saúde. Na ocasião, foi aprovada a Política Nacional de Assistência Farmacêutica. No mesmo mês, o governo Lula publicou um decreto criando o programa Farmácia Popular do Brasil.
“Na ocasião, tínhamos uma parceria com universidades, uma rede própria e, na sequência, começou também a parceria com o setor privado, nessa perspectiva de dar acesso. Significa, a pessoa ter perto de casa uma farmácia para fazer essa dispensação, numa lógica de uma equipe multidisciplinar, desde o diagnóstico, chegando então na utilização do medicamento com acompanhamento do farmacêutico”, pontuou.
Atualmente, estão disponíveis pelo Farmácia Popular 41 produtos — além de remédios absorventes e fraldas — que a população consegue retirar gratuitamente.
“De 2023 a 2025, tivemos um aumento de 24,8% de pessoas buscando medicamentos, fraldas, absorventes. Nesse período, tivemos um aumento de pacientes [que retiram remédio para] diabetes de 12.7%, hipertensão de, praticamente, 9%. Este ano, até setembro, já passam de 24 milhões de pessoas usufruindo desse processo”, explicou Débora.
De acordo com a farmacêutica, estudos mostram que, em uma família de quatro integrantes, a economia somente em fraldas geriátricas fica em torno de R$ 3.240 por ano. Já familiares que utilizam medicamentos para Parkinson, a economia é de R$ 1.500 e R$1.100 para quem tem diabetes.
Para ela, caso Flávio seja eleito, as políticas sociais também serão desmontadas em paralelo com a flexiblização do trabalho. “As pessoas certamente passarão por um agravamento social, que repercute na sua condição financeira e, portanto, de dificuldade em adquirir medicamentos. Hoje, as pessoas conseguem esses medicamentos nas farmácias privadas sem desembolsar nenhum recurso, vão ter que passar a desembolsar recurso para comprar, porque, dificilmente, grande parte desses medicamentos estarão disponíveis no SUS”.
Pacientes apreensivos
A aposentada Mara Aparecida de Andrade, 63, utiliza o programa Farmácia Popular para ter acesso à medicamentos e fraldas. O marido dela, que atualmente tem 67 anos, teve câncer de próstata e, como sequela, apresenta um pouco de escape. Os quatro pacotes de fralda são entregues na casa dela. Na farmácia, cada pacote sairia por cerca de R$ 60 e a família gastaria, em média, R$ 240 por mês.
“É o dinheiro da minha conta de luz, de outros medicamentos que ele utiliza, até por conta do câncer, ele tem que usar alguns medicamentos que não são fornecidos na UBS. Então, é um dinheiro que você destina para outras coisas”, contou.
Além das fraldas geriátricas para o marido, a família pega pelo Farmácia Popular remédios para pressão, diabetes e colesterol, como Glifagem, Losatana, Atenolol, Sinvastatina. Ambos fazem uso dessas medicações.
“A minha preocupação é muito grande, entra também a questão da aposentadoria, ele [Flávio Bolsonaro] pode desvincular a aposentadoria do salário mínimo e, ele daria quando quisesse aumento para o aposentado e não seria um aumento real de acordo com a inflação. Isso é uma coisa que me preocupa, porque a aposentadoria já não é o suficiente, não é a mesma coisa do salário que a gente recebia enquanto estava na vida ativa […] se isso do mínimo, vamos pensar, fica aí 4 anos, o quanto a gente vai perder, qualquer governo que vier, depois não vai conseguir substituir isso tão rápido”, opinou Mara.
Em 2026, o Farmácia Popular atendeu 24,5 milhões de pessoas. A vice-presidenta da Federação Nacional dos Farmacêuticos destaca que a importância do programa é a lógica da atenção primaria, para que as pessoas não cheguem a ter um agravamento da doença e precisem de atendimento de alta complexidade.
“Bolsonaro, quando esteve na Presidência, fez cortes de mais de 50% de investimentos no programa Farmácia Popular. Na verdade, ele tentou aquela ocasião terminar com o programa Farmácia Popular e uma grande mobilização da sociedade civil, do controle social, através de denúncia conseguiu que o programa continuasse, mas continuou naquele período de uma forma completamente desmontada”, relembrou a farmacêutica.


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