Medida aprovada pelos clubes reduz espaço das casas de apostas nos uniformes e abre mercado…

presidente sobe o tom, chama apostas de doença
Lula questiona lucro das bets em cima da geração de vício e dívidas das famílias brasileiras
Lula subiu o tom contra as bets e transformou o enfrentamento às apostas on-line em uma meta de governo. Após semanas defendendo pessoalmente o fim das plataformas, Lula cobrou medidas concretas de ministros, classificou o jogo como “doença” e prometeu que, se depender de sua vontade, as apostas não terão mais vez no Brasil.
O Palácio do Planalto discute uma Medida Provisória para restringir cassinos on-line e endurecer as regras do setor, enquanto torcidas se mobilizam nas redes em apoio ao fim das bets. Leia mais sobre Lula contra bets com a TVT News.
Lula contra bets: o que está em jogo
- O que o governo Lula estuda: uma Medida Provisória para proibir cassinos online (como o “Tigrinho” e o “Aviator”) e restringir a publicidade de apostas esportivas, sem necessariamente acabar com os patrocínios de clubes.
- Por que clubes dizem depender das bets: 13 clubes da Série A têm casas de apostas como patrocinadoras máster, em contratos que somam cerca de R$ 1 bilhão por ano.
- Como as torcidas reagiram: manifestações contrárias ao posicionamento dos clubes dominaram as redes sociais, com índices de rejeição que chegaram a 90% em alguns perfis.
- O que as bets causam nas famílias: endividamento, comprometimento do orçamento doméstico, casos de jogo compulsivo e impactos na saúde mental, com relatos de pessoas que perderam patrimônio e enfrentaram crises familiares.
- O que são bets: plataformas de apostas de quota fixa, regulamentadas no Brasil desde 2025, que incluem apostas esportivas e jogos de resultado instantâneo.
O que o governo estuda sobre o mercado de bets
O desenho da medida ainda não está fechado, mas diferentes frentes aparecem nas discussões do Palácio do Planalto.
A proposta mais avançada é uma Medida Provisória para proibir os cassinos online — jogos de resultado instantâneo, como os chamados “tigrinho” e “Aviator” — e endurecer as regras do mercado de apostas. A extensão das restrições às apostas esportivas, à publicidade e aos patrocínios ainda é objeto de discussão dentro do governo.
Ao tratar do tema, Lula deixou claro que sua preocupação não está apenas na existência das plataformas, mas na dimensão que elas alcançaram na vida cotidiana dos brasileiros e na rede de interesses econômicos construída em torno delas. O setor bilionário passou a movimentar clubes de futebol, empresas de comunicação, influenciadores e publicidade, enquanto o endividamento e a dependência recaem sobre os apostadores e suas famílias.
“Faz uns dois meses que estou discutindo o papel dessa jogatina eletrônica através das redes digitais, que está levando muita gente a se endividar. Tenho certeza que aqui nesse público tem gente endividada que já não pode pagar a dívida, e quando a pessoa está endividada, mente. Mulher mente para o marido, marido mente para a mulher, filho e filha mentem para a mãe e o pai”, disse.
O ponto mais adiantado é o veto aos cassinos on-line. Segundo informações que circulam entre integrantes do governo, a proposta pode preservar, ao menos inicialmente, os patrocínios de clubes. A decisão final, porém, depende de Lula, que tem repetido publicamente uma posição mais ampla: se depender de sua vontade pessoal, as bets acabam.
“Eu vou defender o fim disso, porque não há arrecadação que justifique o mal que está fazendo para o brasileiro”, afirmou Lula.
Haddad classificou o cenário como uma “epidemia de bet” e disse que as apostas representam “um grande perigo”. O ministro também dimensionou o tamanho econômico do setor, que movimenta muito dinheiro mas quase não gera empregos. “Nós podemos estar falando alguma coisa entre 0,5% e 1% do PIB, é muito dinheiro para uma coisa que não está gerando bem-estar algum”, declarou Haddad.
A cautela dentro do governo tem razões jurídicas e fiscais. As empresas atualmente autorizadas pagaram outorgas para explorar apostas esportivas e jogos online. Uma mudança abrupta pode provocar judicialização e pedidos de ressarcimento. Ao mesmo tempo, o governo perderia parte da arrecadação gerada pelo setor.
O que as bets causam nas famílias brasileiras
O impacto das apostas online sobre o endividamento das famílias e a saúde mental dos brasileiros tem sido tema de debates no Senado. Psiquiatras destacam o aumento de casos de jogo compulsivo, principalmente entre jovens, pessoas de baixa renda e pouca escolaridade.
Dados da Confederação Nacional do Comércio apontam que, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência das famílias causada pelas apostas online retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. Estudo do Senado mostra que 40% dos entrevistados afirmam que familiares contraíram dívidas por causa das apostas, e 45% dos endividados relatam impacto direto na qualidade de vida.
O presidente Lula relatou casos de pessoas que acumularam dívidas e enfrentaram situações extremas por causa dos jogos. Ele classificou a prática como “uma doença” e citou brasileiros que venderam bens, esconderam dívidas da família e chegaram a tentar tirar a própria vida por causa dos prejuízos.
- Veja o vídeo com depoimentos de pessoas viciadas em bets:
O que o presidente pode fazer sobre as bets
Post de Lula no X (antigo Twitter):
“O vício nas BETs está destruindo famílias inteiras. Tenho ouvido muitas brasileiras e brasileiros impactados por essas plataformas que estão na palma da mão. Se depender de mim, os jogos de aposta não terão mais vez no nosso país.”
A publicação do presidente nas redes sociais resume a posição que ele tem defendido em discursos e reuniões. Lula afirmou que pretende chamar os clubes de futebol para conversar sobre o tema e criticou a relação entre as casas de apostas e o esporte brasileiro.
Pesquisas citadas pelo governo indicam que 70% da população apoia algum tipo de restrição às bets. Estudos internos mostram que a principal causa do endividamento das famílias está nos jogos.
Por que clubes de futebol dizem depender de bets
Clubes e federações de futebol divulgaram um manifesto intitulado “O fim do futebol brasileiro”, criticando as propostas. As entidades alegam risco de “insolvência” financeira e perdas de até R$ 1 bilhão em patrocínios.
O argumento central é a dependência financeira criada nos últimos anos. Segundo o manifesto, 13 clubes da Série A possuem contratos de patrocínio máster com empresas do segmento, movimentando aproximadamente R$ 1 bilhão em receitas de patrocínio. Mais de dois terços das equipes das séries A e B estampam patrocínios de casas de apostas no uniforme.
A publicidade de apostas é alvo de críticas por causa da exposição excessiva, do risco de dependência e do alcance sobre públicos vulneráveis. As propostas em análise incluem restrições de horário, linguagem e presença das marcas em ambientes esportivos.
Como as torcidas reagiram à manifestação dos clubes
A reação das torcidas foi dura. Levantamento do Portal 91 mostrou que 88% das interações analisadas nas redes sociais criticaram o manifesto divulgado pelos clubes. Em alguns perfis, a rejeição chegou a 90%.
Os torcedores encheram as redes com posts lembrando que os clubes existem há décadas sem o dinheiro das bets e questionando a dependência financeira dos dirigentes e o descaso quanto aos problemas de vício e endividamento. “Mico”, “vergonha nacional”, “canalhice” e “nota ridícula” foram algumas das palavras usadas pelos torcedores dos grandes times.
O Flamengo registrou 86% de comentários negativos, enquanto o post conjunto de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo teve 85% de rejeição. O Vasco chegou a 90% de críticas. Lideranças de torcidas organizadas e outras associações ligadas aos times também repudiaram o tom alarmista das diretorias e defenderam o fim das apostas no esporte.
Brasil foi campeão antes das bets
Lula questionou a ideia de que o futebol brasileiro ou outros setores dependam das apostas para sobreviver. “Disseram que se eu acabar com as bets, vou acabar com o futebol. Essa gente está mentindo, porque o São Paulo foi três vezes campeão do mundo sem ter bet, o Flamengo foi campeão do mundo sem ter bet, o Santos foi campeão do mundo sem ter bet, o Corinthians foi campeão do mundo sem ter bet”, elencou.
O presidente recorreu à própria história da Seleção para contestar a associação entre apostas e o sucesso do futebol. “A Seleção foi campeã em 58 sem bet. Foi campeã do mundo em 62 sem bet. Foi campeã do mundo em 70 sem bet. Foi tetra em 94 sem bet. E foi penta em 2002 sem bet. Depois que começou a bet, nós não ganhamos mais nenhuma Copa do Mundo”.
Campanha contra bets toma conta das redes sociais
O presidente Lula estuda medidas contra a publicidade de bets, e o tema ganhou força nas redes sociais. A palavra de ordem “BORA LULA CONTRA AS BETS” se espalhou entre apoiadores, que mobilizaram perfis para defender a ofensiva do governo contra as plataformas de apostas.
Os clubes de futebol reagiram com uma nota conjunta contra as restrições, mas foram duramente criticados pelas torcidas. Levantamentos mostram que a rejeição aos posts dos clubes chegou a 90% em alguns casos, com torcedores questionando a dependência financeira das diretorias e defendendo o fim das apostas no esporte.
O que são bets
O termo “bet” é a palavra em inglês para “aposta”. No contexto de jogos de azar, refere-se a qualquer tipo de aposta feita em eventos cujo resultado é incerto, como partidas esportivas ou jogos de cassino.
No Brasil, o segmento de apostas de quota fixa e jogos online foi regulamentado em janeiro de 2025. A Lei 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets, dispõe sobre a modalidade lotérica denominada apostas de quota fixa, em que o apostador sabe exatamente qual é a taxa de retorno no momento da aposta.
As plataformas abrangem apostas esportivas, apostas virtuais, eventos reais e jogos de resultado instantâneo. O mercado de apostas esportivas de quota fixa foi autorizado em 2018, no governo Michel Temer, pela Lei 13.756.
As apostas esportivas foram legalizadas pela Lei 13.756, de 2018, durante o governo Michel Temer, mas a regulamentação prevista não foi concluída. Na gestão Bolsonaro, não houve avanços e o setor correu solto. Em 2023, já no governo Lula, foi editada a MP 1.182 e, posteriormente, aprovada a Lei 14.790, que estabeleceu o marco regulatório das apostas de quota fixa e incluiu os jogos on-line na regulamentação.
Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente. A regulamentação estabeleceu regras para autorização, fiscalização, tributação, publicidade e proteção de apostadores.
Em julho, o governo ampliou as exigências para a publicidade do setor: novas regras passaram a exigir, nas peças publicitárias, advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. As medidas entraram em vigor em julho.

A regulamentação também deixou explícita a dimensão econômica da cadeia formada em torno das bets. Segundo o Ministério da Fazenda, as empresas devem pagar 12% sobre a receita bruta para destinações previstas em lei, entre elas contrapartidas relacionadas ao uso de denominações, imagens, marcas, emblemas e símbolos de organizações esportivas, clubes e atletas.
O próprio governo esclarece que esses recursos têm natureza privada e decorrem do uso desses direitos pelas operadoras.
Na publicidade, os valores também mostram a dimensão dos negócios que se formaram em torno das apostas. Segundo levantamento da Folha a partir do balanço da Blaze, a empresa destinou R$ 330 milhões à publicidade externa entre janeiro e novembro de 2025.
É essa engrenagem que Lula passou a colocar em xeque. Para o presidente, não basta olhar para o dinheiro que circula. É preciso olhar para o dinheiro que sai do bolso de quem aposta e para as consequências quando a aposta deixa de ser entretenimento e passa a ocupar o lugar da renda familiar.
“A única dívida que nos dá orgulho é quando a gente faz uma dívida para aumentar o patrimônio da gente, para melhorar a vida da gente, mas dívida de jogo não é uma coisa que a gente possa aceitar”, afirmou.


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