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sexta-feira, 21 de agosto de 2026 -

Perito de Dark Horse admite que não sabe destino do dinheiro de Vorcaro

Perito responsável por laudo usado por Flávio Bolsonaro admite que não analisou preços de mercado nem destino final dos recursos; PF já pede mais dados

A prestação de contas apresentada por Flávio Bolsonaro para justificar os recursos destinados ao filme Dark Horse ainda não esclarece todo o caminho do dinheiro negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Uma entrevista do jornalista Paulo Motoryn com Anísio Costa Castelo Branco, responsável pelo laudo privado usado pela defesa da produtora Go Up Entertainment, mostra que a perícia tem limites importantes: não avaliou se os preços pagos na produção eram compatíveis com o mercado cinematográfico e também não consegue apontar o destino dos recursos depois que eles foram recebidos pelas empresas contratadas.

As informações foram publicadas em 21 de agosto de 2026 na newsletter Noites Húngaras, de Motoryn. O material foi divulgado um dia depois de Flávio Bolsonaro afirmar, durante uma agenda de campanha em São Paulo, que o caso estava “página virada” e que a prestação de contas sobre o filme já havia sido apresentada.

Em conversa com Motoryn, Anísio Costa Castelo Branco afirmou que sua perícia não analisou se os gastos da produção eram compatíveis com os preços praticados pelo mercado audiovisual nem conseguiu rastrear o que as empresas contratadas fizeram com o dinheiro depois que o receberam.

Segundo a newsletter, o laudo foi produzido a pedido da defesa da responsável pela Go Up Entertainment, foi anexado a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo e posteriormente chegou ao conhecimento da imprensa. A entrevista com Castelo Branco, porém, revela que o documento não responde a todas as perguntas sobre a origem, a utilização e o destino final dos recursos.

O próprio perito afirmou que possui registros das transferências feitas pelo fundo Havengate Development LP para a produtora e que a maior parte dos recursos identificados na perícia teria vindo dessa estrutura financeira. Ao mesmo tempo, disse não acompanhar o que ocorreu com o dinheiro depois que ele chegou às empresas fornecedoras.

Quais as perguntas não respondidas sobre o dinheiro para Dark Horse que a perícia não consegue responder

A entrevista de Castelo Branco revelou ao menos duas lacunas centrais no laudo que vinha sendo apresentado como prestação de contas do filme.

A primeira: a perícia não analisou se os custos de Dark Horse estavam compatíveis com os preços de mercado do cinema.

Questionado diretamente se essa análise foi feita, o perito respondeu: “Não, eu não fiz esse tipo de análise.” E completou: “A análise que eu fiz foi essa que eu te falei: verificar se houve transferência de dinheiro público, mostrar quanto foram os custos da produção nacional, os custos da produção internacional, mas eu não julgo se os custos são altos ou se são baixos.”

A segunda: o laudo não consegue determinar o que as empresas contratadas pela produção fizeram com o dinheiro após recebê-lo.

O perito explicou: “Não consigo controlar o que acontece da terceira camada para trás.” E deu um exemplo: “Se ela pegou esse dinheiro que recebeu e deu para alguém, isso eu não posso […] controlar. Porque eu não controlo o que acontece nas empresas que recebem dinheiro.”

A perícia, portanto, acompanha parte do caminho do dinheiro até a produtora, mas não consegue descartar que recursos tenham sido posteriormente enviados para terceiros.

Conclusão 1

O laudo não pode ser tratado como uma auditoria completa sobre a razoabilidade dos gastos de Dark Horse. O documento examina registros financeiros e custos apresentados, mas não determina se os valores contratados eram compatíveis com o mercado nem acompanha o dinheiro indefinidamente depois de cada pagamento.

O que a Polícia Federal quer saber sobre o dinheiro que Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro

A entrevista traz uma informação nova: a Polícia Federal já pediu dados complementares aos responsáveis pela perícia.

Segundo Castelo Branco, a PF enviou um ofício solicitando informações sobre o trabalho realizado. O documento teria sido formulado de maneira ampla, sem especificar inicialmente todos os detalhes sobre a forma de apresentação dos dados. O perito afirmou que a equipe respondeu ao delegado e pediu esclarecimentos adicionais sobre quais informações deveriam ser entregues.

Entre os documentos solicitados está, segundo o próprio Castelo Branco, o registro das transferências feitas pelo fundo Havengate para a Go Up Entertainment.

Esse ponto é relevante porque o perito afirmou ter documentação das transferências realizadas entre o Havengate e a produtora. São, segundo ele, diversos pagamentos feitos em datas diferentes, vinculados ao contrato firmado para a produção.

Quando questionado sobre a soma exata das transferências, contudo, disse que não tinha naquele momento o valor consolidado em mãos.

A entrevista também mostra uma informação relevante sobre a origem dos recursos. Castelo Branco afirmou que a maior parte, possivelmente a totalidade, do dinheiro utilizado no projeto identificado pela perícia teria origem no Havengate Development LP.

Isso ajuda a reconstruir o caminho inicial dos recursos: dinheiro associado ao Havengate foi transferido para a produtora e, posteriormente, utilizado para despesas e pagamentos relacionados ao filme. A lacuna surge quando se tenta seguir cada real ou dólar depois dos pagamentos aos fornecedores.

A Polícia Federal, portanto, busca aprofundar justamente essa reconstrução documental. A requisição, segundo o perito, envolve informações relacionadas a transferências, despesas operacionais e custos da produção. Castelo Branco também afirmou que existem dados que não foram apresentados de forma individualizada no documento que veio a público, inclusive nomes de pessoas e informações sobre quem recebeu os pagamentos.

O cuidado apontado pela equipe da perícia é com informações protegidas por sigilo bancário. O perito disse que os dados podem ser fornecidos às autoridades quando houver determinação para isso, mas que a equipe precisa respeitar as regras de proteção dessas informações.

Conclusão 2

A Polícia Federal já está em campo para obter respostas que o laudo particular não forneceu. Castelo Branco revelou que recebeu um ofício da PF solicitando dados referentes ao trabalho, envolvendo transferências, despesas operacionais e custos do filme

Quem é o perito Anisio Castelo Branco

Anisio Castelo Branco é presidente do Instituto de Perícia Investigativa e assina o laudo sobre os gastos do filme Dark Horse. O documento foi produzido a pedido da defesa da responsável pela produtora GoUp Entertainment, anexado a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo e divulgado à imprensa há cerca de dois meses.

A importância de sua fala está no fato de que o laudo tem sido usado politicamente como resposta às suspeitas sobre o financiamento do longa. No entanto, a entrevista revelou que o trabalho do perito tem limites que não haviam sido explicitados até então.

Castelo Branco afirmou que nunca havia feito uma perícia de produção cinematográfica antes. Quando questionado se não seria adequado chamar alguém com experiência no mercado audiovisual para apoiá-lo, respondeu que a formação em administração e contabilidade seria suficiente para analisar empresas de diferentes setores.

A distinção é importante. Uma perícia pode identificar que determinada empresa recebeu uma quantia e que aquele pagamento aparece em registros financeiros. Isso não significa, necessariamente, que o preço pago tenha sido adequado para aquele serviço, que a despesa tenha correspondido exatamente ao trabalho realizado ou que o dinheiro tenha permanecido dentro da cadeia de produção do filme.

Castelo Branco reconheceu essa diferença durante a entrevista. Questionado sobre a comparação dos custos do filme com os preços do mercado cinematográfico, respondeu: “Não, eu não fiz esse tipo de análise”.

Relembre o escândalo Dark Horse

O escândalo Dark Horse teve início em 13 de maio, quando o The Intercept Brasil publicou reportagem com áudios e mensagens que expuseram a negociação direta entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Como começou a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Em 13 de maio de 2026, o The Intercept Brasil revelou áudios e mensagens que mostravam Flávio Bolsonaro negociando diretamente com Vorcaro recursos para o longa-metragem. A documentação reunida pelo veículo indicava transferências realizadas ao longo de 2025 para financiar o projeto.

As negociações chamaram atenção também pelos valores envolvidos. Documentos indicavam uma previsão de aproximadamente US$ 134 milhões nas tratativas, enquanto os registros apresentados sobre aportes apontavam valores inferiores transferidos ao projeto.

Reprodução da conversa com o pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro, do Banco Master, obtida pelo Intercet. Reprodução / Intercept

As reuniões entre Flávio e Vorcaro

As investigações mostraram que Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro tiveram pelo menos dois encontros presenciais durante as negociações. Além da reunião no fim de novembro de 2025 na residência de Vorcaro em São Paulo, houve outra ocorrida no primeiro semestre de 2025, em uma mansão alugada por Vorcaro em Brasília, sem testemunhas.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, admitiu publicamente que o senador procurou Vorcaro após a prisão domiciliar do banqueiro para tentar garantir a continuidade do financiamento — versão que contradiz a de Flávio, que afirmou ter ido a São Paulo apenas para “botar um ponto final nessa história”.

Desdobramentos

O caso se multiplicou em desdobramentos judiciais, com investigações da Polícia Federal e novas revelações sobre a relação entre a família Bolsonaro e o banqueiro. A Ancine também identificou irregularidades relacionadas à produção do filme. Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Enquanto isso, a perícia encomendada pela defesa — que Flávio Bolsonaro insiste em apresentar como encerramento do caso — deixou perguntas essenciais sem resposta, e a Polícia Federal já pede mais informações.

O papel do fundo Havengate

Parte dos recursos associados ao financiamento de Dark Horse passou pelo Havengate Development LP, estrutura apontada como parte da engenharia financeira da produção.

A TVT News mostrou anteriormente que documentos indicavam transferências para o fundo, além da relação da estrutura com pessoas ligadas ao entorno de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

dark-horse-pf-estuda-abrir-inquerito-especifico-sobre-filme-de-bolsonaro-foco-principal-esta-em-cerca-de-r-61-milhoes-que-teriam-sido-transferidos-para-o-fundo-offshore-havengate-foto-divulgacao-tvt-news
PF deve investigar cerca de R$ 61 milhões que teriam sido transferidos para o fundo offshore Havengate, que financiou o filme Dark Horse. Foto: Divulgação

É nesse ponto que a nova entrevista de Castelo Branco se conecta ao histórico do caso: o perito afirma possuir registros das transferências entre o Havengate e a Go Up Entertainment, reforçando que esse caminho financeiro pode ser documentado.

Por que os recursos continuam sob investigação

A questão não é apenas saber se houve dinheiro do Havengate para a produtora. A investigação precisa esclarecer também como os recursos foram distribuídos e se o percurso posterior corresponde integralmente ao objetivo declarado de financiar a produção cinematográfica.

Em julho, a Polícia Federal avaliava medidas para rastrear ativos relacionados ao caso e que a destinação dos recursos permanecia sob apuração. A investigação autorizada no Supremo Tribunal Federal envolve justamente a análise das circunstâncias relacionadas ao financiamento do filme.

O histórico do caso também inclui questionamentos sobre a estrutura financeira da produção, investigações envolvendo empresas relacionadas ao projeto e apurações sobre possíveis irregularidades em contratos que chegaram a entidades ligadas aos envolvidos.

A investigação ainda busca o destino final do dinheiro

Três meses depois das primeiras revelações, a pergunta central permanece: qual foi o destino integral dos recursos negociados para Dark Horse?

A perícia privada apresentada pela defesa ajuda a identificar parte do caminho do dinheiro, mas, segundo o próprio responsável pelo laudo, não permite responder o que aconteceu com os recursos depois que eles foram recebidos por fornecedores e outras empresas. Também não foi feita uma comparação dos custos da produção com os preços praticados no mercado cinematográfico.

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As notas fiscais canceladas apresentadas pela a ONG da produtora de Dark Horse à Prefeitura de São Paulo na prestação de contas. — Foto: Reprodução/PMSP

Por isso, a nova solicitação feita pela Polícia Federal aos responsáveis pela perícia é relevante para o andamento da investigação. A entrega de comprovantes, dados de transferências e informações sobre pagamentos pode permitir uma reconstrução mais detalhada da circulação dos recursos.

A declaração de Flávio Bolsonaro de que o caso estava encerrado, portanto, não corresponde ao estágio descrito pelo próprio responsável pela perícia. Enquanto o senador sustenta que a prestação de contas já foi realizada, o perito admite que existem perguntas que o laudo não responde e afirma que a Polícia Federal pediu informações adicionais.

O caso Dark Horse continua com pergunas sem resposta

  • quanto foi efetivamente gasto?
  • quem recebeu os recursos?
  • os preços pagos estavam de acordo com o mercado?
  • e, principalmente, qual foi o destino do dinheiro depois que deixou a conta das empresas diretamente envolvidas na produção?

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