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sexta-feira, 03 de julho de 2026 -

Faltam trabalhadores em bibliotecas na cidade de São Paulo

Para bibliotecários, concurso de Nunes oferece menos vagas que o necessário e bibliotecas são vistas como depósito de livros

O Movimento de União dos Bibliotecários Arquivistas e Museólogos denuncia que concurso anunciado pelo prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB) para bibliotecários não atende a demanda da cidade. O prefeito comunicou um concurso público com 50 vagas, em vídeo publicado nas redes sociais, ao lado do secretário municipal de Cultura José Antônio Totó Parente e de Juliana Lazarim, coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas. Saiba mais em TVT News.

Atualmente, existem 54 bibliotecas públicas vinculadas à Coordenação do Sistema Municipal de Bibliotecas, 58 em CEUs (Centros Educacionais Unificados), a Biblioteca Mario de Andrade, três bibliotecas do Centro Cultural, além do Arquivo Histórico Municipal e da biblioteca do Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes.  

Para o coordenador do Movimento de União dos Bibliotecários, Arquivistas e Museólogos, Felipe Sanches, esses equipamentos têm um histórico de serem sucateados no Brasil e nunca foram vistos como um elemento central de desenvolvimento. “A virada cultural está cada vez mais precarizada, voltada para grandes eventos. Tem um grande evento [pontual] que vai acontecer com grandes nomes. O que acontece, é que esse dinheiro não vai para as pequenas e médias instituições e iniciativas”, disse.  

Reportagem da Agência Pública mostrou que, de 2023 até o primeiro semestre de 2025, a prefeitura de São Paulo gastou com 14 músicos com baixa audiência em plataformas de streaming e redes sociais o valor de R$ 5,1 milhões.  

Enquanto isso, para Sanches, as bibliotecas são vistas “como depósitos de livros e não como lugares de comunidade, de resistência e diversidade”.   

De acordo com o Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep), no ano passado, a Secretaria de Educação prometeu fazer uma apresentação do quadro de profissionais para concursos, mas até agora a entidade não recebeu atualizações.  

A vice-presidente do Sindsep, Luciana Melo, a Luba, alerta que a falta de concursos reduziu as equipes em todas as áreas da prefeitura de São Paulo, e, que para além de faltar profissionais, também existe um problema de infraestrutura. “Tem muito tempo que não tem a compra adequada de livros, a gente tem mobiliário com vários problemas, inclusive, no ano passado o Sindsep atuou cobrando, principalmente, a Secretaria de Educação para atualização de mobiliário, impressora, computadores e nada foi feito”, ressaltou Luba.   

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Sindsep denuncia que além da falta de profissionais, falta infraestrutura e que bibliotecas precisam atualizar mobiliário e computadores./ Foto: Alexandre Linares | Copyleft

Bibliotecários também fazem parte de outras áreas da prefeitura como a Secretaria Municipal da Saúde, atuando no acervo do Hospital do Servidor. Além disso, o Hospital Dr. Carmino Caricchio (Tatuapé) e o Hospital Municipal Maternidade Escola Dr. Mário de Moraes Altenfelder Silva (Vila Nova Cachoeirinha) possuem bibliotecas de apoio científico.   

Luba denuncia que a cidade convive com a irregularidade de não ter bibliotecários em todos os equipamentos e, que o CEU Paz e o CEU Inácio Monteiro, não contam com esses profissionais. A Lei nº 12.244/2010 estabeleceu uma década para que todas as instituições de ensino do país passassem a contar com bibliotecas escolares estruturadas e profissionais qualificados. O prazo venceu em 2020. Também faltam profissionais em acervos e arquivos.   

Bibliotecas no Estado   

Pesquisa do Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo (CRB-8) mostra que, nenhuma das escolas estaduais possui bibliotecas estruturadas e que a a maioria das escolas paulistas possui salas de leitura. O levantamento “Situação das salas de leitura nas escolas públicas”, realizado em 2025, contemplou 536 escolas estaduais, distribuídas em 203 municípios paulistas, e 376 unidades da rede municipal de São Paulo. Apesar de as salas de leitura estarem muito longe do ideal de uma biblioteca formal, em 50 escolas municipais e 26 unidades estaduais analisadas, não foram registradas salas de leitura em funcionamento.  

O Movimento de União de Bibliotecários, Arquivistas e Museólogos publicou uma carta aberta ao pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, Fernando Haddad (PT), com pontos que precisam ser aderidos pelo próximo governo do estado.   

Entre eles, o cumprimento da Lei Federal nº 12.244/2010, atualizada pela Lei Federal nº 14.837/2024, que garante uma biblioteca com bibliotecário em cada escola estadual, mantendo os professores de sala de leitura como complementação. Outro ponto, é a realização de concursos públicos para bibliotecários e assistentes para todos os aparelhos estaduais, além da integração das bibliotecas estaduais, universitárias, escolares, de museus e de institutos de pesquisa do estado de São Paulo.

A carta afirma que o São Paulo tem apenas duas bibliotecas estaduais, sendo ambas privatizadas e terceirizadas. Para o movimento, o governo do estado deveria ampliar esse número e garantir uma biblioteca estadual por região paulista. O texto diz ainda que Tarcísio é inimigo das bibliotecas.

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Na Capital, vinculadas à Coordenação do Sistema Municipal de Bibliotecas estão 54 bibliotecas públicas e 58 bibliotecas dos CEUs (Centros Educacionais Unificados). Foto:Alexandre Linares | Copyleft

O documenta cita o desabamento do teto da biblioteca da Faculdade de Educação da USP. Em maio, parte do teto desabou por causa chuva, parte do acervo foi detruído. “Eles [os servidores] não tiveram nem apoio da própria USP, não tiveram apoio do estado não tiveram apoio de ninguém. Tiveram que se pautar em voluntariado, pessoas voluntárias, estudantes foram lá e ajudaram a secar página por página de cada livro”, contou Sanches. No episódio, em nota, o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Situsp) manisfestou que o incidente se tratava de “uma expressão dramática da precarização da universidade, que não contrata trabalhadoras para o setor de manutenção e para a realização e acompanhamento de projetos de reforma e construção”.  

Sanches destaca que a biblioteca é o lugar em que se tem acesso a todo o conhecimento do mundo. “A gente entende que elas têm um papel social muito importante, que é um papel de ser um lugar de comunidade, de promoção de outras culturas, que não a cultura hegemônica, é a cultura operária, de pessoas negras, pessoas trans, mulheres”, ressaltou   

A estudante Ana vitória do Nascimento Silva, 17, utiliza a biblioteca do Parque Vila Lobos por ser o equipamento mais próximo da casa dela. “Eu tenho frequentado bastante para estudar para provas e principalmente para ter mais concentração para estudar para o Enem”, contou.   

Ela começou a se interessar por frequentar esses espaços da cidade por influência de uma amiga e de professores. “Eu acredito que a educação e a leitura são coisas que as pessoas não podem te tirar porque é conhecimento. Para mim, é um lugar que eu não só vou quando eu preciso estudar, mas também vou quando eu estou livre”.  

A reportagem pediu nota para a Secretária Municipal de Cultura e de Educação, visto que as bibliotecas municipais estão ligadas às duas pastas. Foi questionado se já existe data para publicação do edital do concurso para bibliotecários, se serão contempladas as bibliotecas ligadas a secretaria de Cultura ou de Educação, se existe a possibilidade de o número de vagas ser maior do que 50 e, o que levou a definição desse número de vagas. Também foi questionado o fato do CEU Paz e CEU Inácio Monteiro não possuem bibliotecários. Até o momento da publicação a reportagem não recebeu retorno.

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