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Argentinos vão às urnas em teste de fogo para Milei
Eleições legislativas definem futuro político do presidente em meio à crise economica e alta rejeição popular
A Argentina vive um fim de semana decisivo. Neste domingo (26), os eleitores vão às urnas para renovar parte do Congresso Nacional – metade dos deputados e um terço dos senadores– , em uma eleição considerada um teste crucial para o governo de Javier Milei. O pleito funciona como um termômetro da aprovação do presidente ultraliberal, que enfrenta forte desgaste político e social menos de um ano após assumir o poder. Leia em TVT News.
Se a base governista não conquistar maioria no Parlamento, Milei corre o risco de encerrar o mandato enfraquecido, sem apoio para aprovar reformas e com seus decretos ameaçados por uma oposição mobilizada. A jornalista Carla Perelló, direto de Buenos Aires, conversou com o Jornal TVT News Primeira Edição sobre o “clima” no país e os desafios que cercam a votação.
“Estamos em um cenário muito conturbado politicamente e economicamente. Há denúncias de corrupção envolvendo integrantes do governo e também candidatos ligados ao Milei, o que acirra ainda mais a polarização”, afirmou Perelló. Segundo ela, as ruas e redes sociais refletem um sentimento de insatisfação generalizada com a situação do país.
Rejeicao em alta e incerteza nas urnas com Milei
Pesquisas de opinião recentes mostram um quadro de grande desaprovação à gestão de Milei. Levantamento da Suban Córdoba aponta 63,2% de imagem negativa e 64,7% de rejeição ao governo. Mesmo assim, a disputa segue indefinida: alguns institutos indicam vantagem da coligação governista A Liberdade Avança — com cerca de 42% das intenções de voto —, enquanto outros mostram o peronismo à frente, com números próximos a 37%.
Para Carla Perelló, o resultado ainda é imprevisível. “Há uma quantidade significativa de indecisos, cerca de 20%, e também o risco de alta abstenção. Vai depender do humor do eleitor no dia — se vai chover, se as pessoas vão ter disposição de votar”, observa.
Ela destaca que, embora a economia seja o principal fator de insatisfação, a narrativa construída por Milei contra o peronismo segue influente. “Há um sentimento forte de antipatia em relação ao kirchnerismo. O governo conseguiu reforçar essa rejeição, principalmente nas redes sociais e na mídia tradicional.”
Economia em colapso desafia humor dos argentinos
A vida cotidiana dos argentinos reflete o colapso econômico que o país atravessa. “As pessoas dizem que o salário acaba antes do fim do mês. Muitos precisam de dois ou três trabalhos para conseguir comprar comida ou remédios. É uma crise que atinge as necessidades mais básicas”, relata a jornalista.
A inflação acumulada supera os 250% anuais, enquanto a pobreza alcança 55% da população. As feiras populares se multiplicam em Buenos Aires e nas províncias, onde famílias vendem o que têm para garantir a sobrevivência.
O governo aposta em uma agenda de austeridade extrema — com cortes de subsídios, privatizações e congelamento de gastos públicos — que não tem produzido melhora perceptível para a população. Ainda assim, uma parcela do eleitorado mantém apoio a Milei, movida por rejeição à “velha política”.
Influência externa e alinhamento com EUA
Outro ponto levantado por Perelló é a influência dos Estados Unidos no cenário eleitoral argentino. “Há uma intervenção política e econômica clara. Donald Trump chegou a condicionar uma ajuda de 20 bilhões de dólares à vitória de Milei”, afirma.
Para a jornalista, esse alinhamento gera reações ambíguas. “A Argentina é historicamente um país com sentimentos antiamericanos. Essa aproximação causa desconforto em parte do eleitorado, embora o governo tente vender a ideia de que o apoio dos EUA pode estabilizar a economia.”
O discurso de Milei, abertamente pró-Washington e pró-Israel, reproduz símbolos da extrema direita global. “Vemos bandeiras dos Estados Unidos e de Israel em atos políticos, algo impensável há poucos anos na Argentina. É uma tentativa de associar sua figura à ideia de poder e autoridade, semelhante ao que ocorreu com o bolsonarismo no Brasil”, analisa Perelló.
Radicalização e risco democrático
Além da crise econômica, a Argentina enfrenta um aumento na violência e nos discursos de ódio. “Nos últimos meses houve casos graves de feminicídios e ataques contra a população LGBT. Isso faz parte de um ambiente de intolerância estimulado pelo governo, com discursos agressivos e negacionistas”, alerta a jornalista.
Ela também vê paralelos entre Milei e Jair Bolsonaro. “Assim como Bolsonaro, Milei tenta questionar as instituições e as regras do jogo. Ele chegou a propor mudanças na divulgação dos resultados eleitorais, o que foi barrado pela Justiça. É preciso atenção, porque há um discurso que prepara terreno para contestar o resultado caso o governo seja derrotado.”
Independentemente do desfecho, o cenário argentino deve seguir tenso. “O resultado de domingo mostrará quantas cadeiras Milei terá no Congresso, mas o impacto real será medido na segunda-feira, com a reação dos mercados e a postura do próprio presidente diante das urnas”, diz Perelló.
Ela lembra que, em setembro, o governo sofreu forte derrota na província de Buenos Aires — uma diferença de 14 pontos para o peronismo —, e mesmo assim Milei reagiu com mais radicalização, vetando leis sociais e atacando o Parlamento.
“Se perder novamente, ele tende a reforçar o discurso de confronto, como parte da estratégia de manter sua base mobilizada”, avalia.
A jornalista encerra com um alerta: “É a primeira vez que a sociedade argentina está tão dividida. O país vive um processo semelhante ao que o Brasil enfrentou nos anos de Bolsonaro. O que acontece aqui será um sinal importante sobre o rumo das democracias na América Latina.”


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