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quinta-feira, 24 de setembro de 2026 -

Fim das bets precisa acontecer para saúde do futebol, diz pesquisador

Especialistas dizem que clubes terão de se adaptar, mas as bets comprometem a saúde das famílias

Na última quinta-feira (17) diversos clubes brasileiros publicaram o manifesto “O Fim do Futebol Brasileiro” contra o fim das bets em parceria com a Federação Paulista de Futebol e a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Entre os times que aderiram ao manifesto estão clubes grandes como Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Botafogo, Flamengo, Fluminense. A reação veio após indicações de que o governo federal publicaria uma medida provisória para proibir as apostas. Saiba mais em TVT News.

O presidente Lula tem repetido em diversas ocasiões que irá acabar com as bets e já rebateu os clubes após a publicação da nota. Em evento de campanha afirmou que “A gente pode perder imposto, o que eu não posso perder é a vida dos pobres jogando”. Lembrou as copas vencidas pelo Brasil quando não tinha bets. “Depois que apareceram as bets não ganhou mais nada. Então esse negócio que se acabar com as bets vai acabar com o futebol é uma balela, A gente vai acabar com as bets e com a lavagem de dinheiro, com a safadeza e com a roubalheira”, discursou o presidente.  

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Brasil contra bets: seleção brasileira e clubes de futebol foram campeões do mundo sem as bets, disse o presidente Lula – Foto: Ricardo Stuckert

O compromisso virou tema de campanha em horário eleitoral e vídeo mostra Lula conversando com famílias que foram afetadas pelo vício em bets e ficaram altamente endividadas. 

A nota sobre o fim do futebol afirma que o Brasil precisa enfrentar o problema pela regulamentação e que nos últimos anos “o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo”. 

O texto também diz que uma mudança na legislação “reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país.”. 

Futebol brasileiro depende das bets?

Para o pesquisador do Observatório Social do Futebol (UERJ), Irlan Simões, a nota dos clubes vem porque o futebol brasileiro se especializou em se posicionar enquanto grupo de interesse.

“São várias situações distintas onde eles se posicionaram em conjunto para fazer lobby. E a gente sabe que por de trás dos clubes existem vários escritórios de advocacia poderosíssimos. Dentro da diretoria dos clubes existem pessoas com muita relevância política, com trânsito em Brasília, trânsito na Câmara, com muitos deputados […]  eles podem fazer essa narrativa de que seria um prejuízo, incontornável, insustentável, quando na verdade os clubes já estão quebrados”, afirmou. 

O especialista defende que não existe nenhuma possibilidade dos clubes ficarem sem patrocinadores. “Eles talvez não encontrem patrocinadores dispostos a botar tanto dinheiro, justamente, porque estão numa atividade que não é, necessariamente regulada. Então, as empresas hoje estão inflando o mercado brasileiro com esses valores muito fora da curva. Eles geram um movimento inflacionário no salário dos jogadores, nos valores que são pagos em transferência”.  

Ele destaca que especialistas do mercado, que trabalham com publicidade esportiva já apontam que daqui três a quatro anos essa fase mais aguda da publicidade vai passar “evidentemente que ninguém vai ficar gastando tanto dinheiro com publicidade”. 

Financeirização do futebol  

O economista e ex-presidente do Palmeiras Luiz Gonzaga Beluzzo acredita que as bets são o resultado de um processo de financeirização do futebol.

“O futebol brasileiro até o final dos anos 1970, ele era dirigido pelos clubes de forma amadora. A partir dos anos 1990, isso começou a mudar, porque o futebol europeu passou a ter um papel determinante no aumento de salário dos jogadores, por exemplo, você tem jogadores que dos grandes clubes que ganham 2 milhões por mês, isso abala o balanço dos clubes”.  

Beluzzo complementa: “esse processo histórico financeirizou o futebol. Os clubes antigamente se financiavam com sócios e com a receita dos jogos. Agora não, agora você tem uma pressão de patrocinadores […] os clubes começaram a ser procurados e aceitaram o patrocínio nas camisas, as bets são patrocinadoras do futebol. Por isso que você teve esse manifesto das federações e dos clubes.”. 

Beluzzo também defende alternativas para caso das bets serem proibidas, já que, segundo ele, ocorreu uma forte deterioração das finanças da maioria dos clubes. “É claro que as bets são vistas como uma espécie de ponte de salvação, porque se pegar quais são os times brasileiros considerados os mais populares, todos eles estão com problemas financeiros […]  eu acho que uma alternativa seria ter um programa que seria um atendimento para a população que gosta de futebol. Um programa de melhoria das condições financeiras dos clubes. Um programa público proporcional ao número de sócios.” 

Já Irlan destaca que o futebol enquanto indústria esportiva, opera de forma que quanto mais dinheiro entra, mais dinheiro sai. “Toda a história do endividamento dos clubes de futebol passa por ciclos de aumento de receita que são acompanhados necessariamente por ciclos de aumento estratosféricos de salários e de valores de transferência. A razão pela qual, há 20 anos, os clubes europeus estão ali discutindo regras para controlar os gastos dos clubes. E nós começamos a fazer isso há 2 anos […] muitos clubes daqui a 5 anos estarão muito mais endividados do que estiveram […] talvez a saída das bets, ela precisa acontecer o quanto antes para dar esse freio de arrumação nessa indústria para que o futebol volte a operar de uma forma minimamente saudável”, avaliou. 

Impacto na economia  

Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA/USP (Faculdade de Economia da USP), estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica causada pela redução do consumo, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB.

Para dimensionar essa impacto, o estudo explica que a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro. Esse resultado, leva inclusive, em conta as estimativas dos empregos diretos e indiretos criados associados às bets.  

Uma outra hipótese levantada, é a de que, em vez de prejudicar o consumo, parte das apostas tenha gerado um aumento no endividamento. Nesse cenário, calcula-se, no pior cenário, que as bests respodem por cerca de 14% do aumento do endividamento das famílias em 2025. 

Levantamento da Folha de S.Paulo mostra que aporte de R$ 1 bilhão das bets representa 7% das receitas de clubes brasileiros

  • Patrocínios de casas de apostas somaram R$ 1,03 bilhão para os clubes da Série A em 2025, alta de cerca de 66% em relação aos R$ 618 milhões de 2024.
  • O valor correspondeu a 7,2% das receitas totais dos clubes da Série A, que chegaram a R$ 14,3 bilhões no ano passado.
  • Flamengo, Vasco e Sport apresentaram os maiores percentuais de dependência do dinheiro das apostas em relação às receitas totais.
  • O Flamengo recebeu cerca de R$ 268 milhões da Betano, valor equivalente a 13,6% de sua receita total de 2025.
  • O Vasco teve R$ 70 milhões da Betfair, correspondentes a 12,3% da receita do clube, enquanto o Sport recebeu R$ 22 milhões da Betnacional, cerca de 12% do faturamento.
  • Para o economista Cesar Grafietti, da consultoria Convocados, uma retirada abrupta dos recursos das bets poderia gerar problemas financeiros para os clubes, embora o futebol não dependa exclusivamente dessa fonte de receita.

A reportagem da Folha de S.Paulo, assinada por Lucas Bombana, mostra que, apesar da forte presença das casas de apostas no futebol brasileiro, o dinheiro das bets representa uma parcela relativamente limitada das receitas totais dos clubes da Série A.

Segundo levantamento da consultoria Convocados, citado pela Folha, os patrocínios das empresas de apostas chegaram a R$ 1,03 bilhão em 2025. O montante cresceu aproximadamente 66% em um ano, passando dos R$ 618 milhões registrados em 2024.

Mesmo com esse crescimento, o valor correspondeu a 7,2% dos R$ 14,3 bilhões de receitas totais dos clubes que disputaram a Série A em 2025.

O levantamento também mostra que as receitas comerciais dos clubes alcançaram R$ 3,069 bilhões no ano passado, crescimento de 35,6% sobre 2024. Ainda assim, essa foi a terceira maior fonte de recursos, atrás das transferências de jogadores, que movimentaram R$ 3,915 bilhões, e dos direitos de transmissão, que somaram R$ 3,142 bilhões.

Flamengo, Vasco e Sport são os times com maior dependência do dinheiro das apostas online

Embora o dinheiro das bets represente 7,2% das receitas totais da Série A, o peso dessa fonte varia entre os clubes. O levantamento da Convocados aponta Flamengo, Vasco e Sport como as equipes em que os patrocínios de apostas tinham maior participação proporcional nas receitas de 2025.

O Flamengo aparece no topo. O contrato com a Betano foi estimado em R$ 268 milhões por ano, equivalente a 13,6% dos R$ 1,973 bilhão de receita total do clube em 2025.

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Flamengo é o clube que mais recebe das bets: contrato com a Betano foi estimado em R$ 268 milhões por ano. (Foto de Mauro Pimentel / AFP)

Na sequência está o Vasco, que recebeu cerca de R$ 70 milhões da Betfair. O valor representou aproximadamente 12,3% dos R$ 570 milhões de receitas do clube no período.

O Sport aparece logo depois. O acordo com a Betnacional foi de aproximadamente R$ 22 milhões, o equivalente a cerca de 12% dos R$ 183 milhões arrecadados pelo clube em 2025.

Os números ajudam a dimensionar a discussão sobre eventuais restrições à publicidade e aos patrocínios das casas de apostas. Enquanto alguns clubes têm uma exposição proporcionalmente maior a esse dinheiro, a receita das bets, considerada em conjunto, não representa a maior fonte de recursos do futebol da Série A.

“O futebol não acabará sem as bets, mas sofrerá numa situação de ruptura”, diz economista Cesar Grafietti

O economista Cesar Grafietti, sócio da consultoria Convocados, avalia que uma eventual retirada abrupta dos recursos das bets poderia provocar dificuldades para os clubes.

Segundo Grafietti, os contratos com jogadores têm duração prolongada, os custos para manter as equipes são elevados e as dívidas continuam vencendo mesmo diante de uma redução de receitas.

“O futebol não acabará sem as bets, mas sofrerá numa situação de ruptura”, afirmou o economista à Folha de S.Paulo.

A declaração ocorre em meio à discussão sobre possíveis mudanças nas regras para publicidade e patrocínio de apostas esportivas. Alguns dos principais clubes brasileiros divulgaram, em 17 de setembro, um manifesto chamado “O fim do futebol brasileiro”, no qual manifestaram preocupação com eventuais restrições ao patrocínio das bets.

A Folha também relata que há projetos em tramitação em São Paulo para restringir a publicidade de apostas em eventos esportivos e espaços públicos. O debate envolve clubes, empresas do setor, entidades esportivas e órgãos públicos.

O levantamento da Convocados, portanto, mostra duas dimensões da discussão: o dinheiro das bets ganhou peso significativo nos últimos anos e já representa uma parcela relevante das receitas de alguns clubes, mas, no conjunto da Série A, responde por pouco mais de 7% do faturamento total.

Fonte: reportagem de Lucas Bombana para a Folha de S.Paulo, publicada em 23 de setembro de 2026, com dados da consultoria Convocados. Leia a reportagem da Folha de S.Paulo

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