É a primeira vez na história brasileira que representantes de povos originários entram para o…

Presente (em memória de Amelinha Teles)
Crônica de Carlos Alberto José de Carvalho
Na foto, um menino descalço em cima de um caminhão de brinquedo, de calção, o torso nu, um pé afundado no vão da carroceria de lata, o outro apoiado na cabine. Segura na mão esquerda uma bola. A mão direita está apoiada no muro, os dedos unidos em pinça, num gesto que não se sabe se é de equilíbrio ou de recusa. A testa franzida, a boca contraída para baixo.
Atrás dele, uma parede caiada, descascada em placas irregulares, e o degrau de uma soleira que separa o piso claro de um chão mais escuro, talvez terra batida. Não há sorriso. Não há ninguém mais no enquadramento. A imagem foi tirada na altura dos olhos, o que faz o menino parecer maior do que era.

Não se pode extrair de uma fotografia aquilo que ela não contém: nem o nome da rua, nem a hora do dia, nem a razão de estar ali sozinho sobre um caminhão de lata amassada, nem se a testa franzida era contra o sol ou contra o fotógrafo. O que a foto dá é um inventário: uma criança, um calção puído na cintura, um muro pobre, um degrau, um objeto redondo numa das mãos.
É a um inventário desses que se recorre quando não se tem lembrança própria de um lugar — e eu não tenho nenhuma lembrança de Jacarepaguá, da casa perto da Praça Seca, dos dois ou três anos que ali passei. O que tenho são fotos como esta e frases de terceiros, repetidas depois por décadas, que ocupam o lugar onde deveria estar a memória.
Uma dessas frases é de Amelinha: que teria sido, ali, minha babá. Ditas com exagero — ela mesma reconhecia o exagero ao dizê-las — mas plausíveis, dado o resto: meus pais viviam isolados naquela casa do sertão carioca, a família em São Paulo, longe; as únicas visitas eram de militantes que se reuniam ali para planejar a Revolução, palavra que na época não precisava de aspas nem de maiúscula reticente como precisa agora.
Nesses encontros é provável — o verbo certo é este, provável, não certo — que alguém precisasse, nos intervalos das reuniões, cuidar da criança. Amelinha, ajudante entre uma pauta e outra. Não há foto disso. Há apenas a mesma lógica que atribui à foto do menino no caminhão um sentido que ela sozinha não tem: a lógica de quem organiza, depois, os fragmentos que sobraram.
Outras frases também vieram daquela casa e sobreviveram sem imagem que as sustente. Que minha mãe aprendeu ali, com Clara Charf, a fazer purê, prato que se tornaria, sem que ela então soubesse, o predileto do filho. Que João Amazonas dizia que passaria por avô do menino.

Que Danielli achava isso impossível, e o argumento de Danielli não era sobre parecença, mas sobre justiça: o menino era bonito, Amazonas era feio, logo o parentesco não podia se sustentar. Frases de sobremesa, ditas entre uma tarefa clandestina e outra, guardadas por quem as repetiu depois em outras décadas, noutras casas, quando já não havia mais nada a planejar.
Passaram-se, entre a foto do caminhão e o dia em que volto a escrever sobre Amelinha, quase sessenta anos. A última vez que a vi foi em 4 de novembro do ano passado, na Alameda Casa Branca, quase esquina com a Lorena, diante do pequeno monumento de granito que marca onde Carlos Marighella foi morto numa noite de 1969.
A placa de bronze que o acompanhava não existe mais: foi arrancada, repuseram, arrancaram de novo, e desta vez desistiram de repor, porque sabiam que seria arrancada outra vez. Um monumento sem sua legenda é uma fotografia sem sua legenda: a pedra continua ali, dizendo que algo aconteceu naquele ponto exato da calçada, mas sem dizer mais nada — como o menino do caminhão, que continua sobre a lata amassada dizendo apenas que existiu, sem dizer onde, nem quando ao certo, nem por quê.
Depois dos discursos — uns quarenta companheiros ouvindo, meu irmão Ernesto um dos últimos a falar — subimos a alameda abraçados com Amelinha. Nos despedimos na altura da Alameda Franca. Ela mandou um abraço para minha mãe. Eu disse: até ano que vem.
No próximo 4 de novembro, na Alameda Casa Branca, alguém vai gritar o nome de Amelinha, e os presentes vão responder: presente. É o ritual que ela ouviu tantas vezes ser feito para Marighella, (para Clara, no ano passado) ali mesmo, diante do granito sem placa.
Naquela manhã ela subiu a alameda conosco, abraçada a mim e ao Ernesto, e nos despedimos na altura da Alameda Franca, e o nome dela não estava em nenhuma lista. Amelinha morreu ontem, aos 81 anos. A frase “até ano que vem”, que eu disse sem pensar, entra agora para o mesmo arquivo do menino sobre o caminhão de lata: um enunciado que na hora não pedia licença para se tornar depois, para alguém, prova de alguma coisa.
Os artigos dos colunistas expressam as opiniões individuais da autora ou do autor e não, necessariamente, refletem a opinião da TVT News
Leia mais na TVT News


Comments (0)