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sábado, 29 de novembro de 2025 -

120 anos da morte de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa

Pessoa nunca considerou o ofício literário uma “profissão”: para ele, ser poeta era vocação

Em 30 de novembro de 2025 completam-se 120 anos da morte de Fernando Pessoa — uma data que convida a revisitar a vida singular e a obra monumental desse vulto da literatura lusófona. Pessoa partiu em 1935, aos 47 anos, mas deixou um legado que, especialmente após a publicação póstuma de sua vasta obra, transformou-o no nome mais universal da poesia portuguesa. Conheça mais em TVT News.

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888, em Lisboa, no Largo de São Carlos. Apesar da relativa brevidade de sua existência — “vivida” especialmente no mundo dos livros, das letras e da imaginação —, ele percorreu um caminho de rara fecundidade literária e inventividade intelectual.

Embora tenha trabalhado como correspondente comercial e tradutor, Pessoa nunca considerou o ofício literário uma “profissão”: para ele, ser poeta era vocação. Sua erudição, presente desde a infância, conviveu com o cosmopolitismo de uma leitura multilingue — ele escrevia em português, inglês e até francês.

Morreu em 30 de novembro de 1935, em Lisboa, no Hospital de São Luís dos Franceses — diagnosticado com cólica hepática, faleceu com 47 anos.

Fernando Pessoa

A obra e o mistério da heteronímia

Apesar de ter publicado muito pouco em vida, a obra de Pessoa tem dimensões impressionantes: são mais de 25 mil folhas de textos, hoje sob guarda da Biblioteca Nacional de Portugal. Ele próprio antecipou o caráter multifacetado de sua criação: “esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação.”

O que distingue Pessoa de quase todos os demais escritores de sua geração — e o que o torna, para muitos, singular — é o uso da heteronímia: em vez de meros pseudônimos, ele inventou poetas inteiros, completos, com biografias, estilos próprios, filosofias distintas.

Os três heterônimos mais célebres são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos — aos quais se adiciona o semi-heterônimo Bernardo Soares.

Cada um deles representa uma faceta distinta da sensibilidade e do olhar pessoano. Alberto Caeiro, por exemplo, é o “mestre ingênuo”, o poeta da natureza e da percepção direta: sua poesia dispensa a metafísica e abraça o sensacionismo.

De “O Guardador de Rebanhos”, de Caeiro, um de seus poemas mais emblemáticos, ecoa este trecho:

“Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse. / Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estações…”

Já Ricardo Reis propõe um olhar clássico e estoico sobre a vida — a temperança, o desapego e o equilíbrio.

Por sua vez, Álvaro de Campos encarna a angústia moderna, o desassossego existencial, a pulsão urbana. Em seu heterônimo, Pessoa dá vazão a uma voz multifacetada, que ora exalta a modernidade com epifanias simultaneamente eufóricas e dolorosas — como na célebre “Ode Triunfal” — ora se volta para a introspecção angustiada.

Além desses três, Bernardo Soares emerge como um “semi-heterônimo”: não uma personalidade completamente distinta, mas uma “mutilação” do próprio Pessoa — como o próprio admitiu em carta. Seus textos compõem o icônico Livro do Desassossego, obra-prima da prosa fragmentária, onde a confusão entre sonho e realidade, a melancolia e a cidade — Lisboa — se fazem carne e pensamento.

Vozes antológicas

Embora a obra de Pessoa só tenha sido amplamente organizada e editada a partir de 1942 — sete anos após sua morte —, o que hoje conhecemos revela o alcance universal de sua poesia.

Entre os poemas mais memoráveis, “Tabacaria”, assinado por Álvaro de Campos, permanece como um dos marcos da modernidade literária em língua portuguesa. Nele, o poeta invade tanto o espaço externo — a rua, a cidade — quanto o interno — a angústia existencial, o sentimento de nada e de infinito simultâneos.

Do heterónimo Alberto Caeiro, o poema “O Guardador de Rebanhos” revela a filosofia da presença e da contemplação: sua poesia é a recusa da sobrecarga simbólica, a afirmação da simplicidade e da imediaticidade da natureza.

E o próprio Pessoa, no poema “Autopsicografia”, definiu de modo agudo seu papel de “fingidor”:

“O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.”

Esses versos sintetizam a ambiguidade central da sua obra — o eu verdadeiro, o eu heterônimos, o eu fingido — e a potência de sua escrita, que transforma dor, incerteza e sensação em arte.

Legado e reconhecimento póstumo

O legado de Pessoa só começou a ser plenamente compreendido anos depois de sua morte. A partir de 1942 começaram as edições organizadas de seus textos, tanto poemas quanto prosa, ensaio, cartas, fragmentos — multiplicando exponencialmente seu impacto literário.

Entre as obras mais celebradas pós-mortem está o Livro do Desassossego — quase 700 textos reunidos de um mosaico fragmentário que foram aos poucos reconstruindo a dimensão introspectiva, existencial e urbana do poeta e de seus “semi-heterônimos”.

Na contemporaneidade, projetos como o Arquivo LdoD, da faculdade de letras da Universidade de Coimbra, digitalizam e tornam acessível esse acervo, incitando novas leituras, novas interpretações e, por vezes, novas “releituras” da obra de Pessoa como um organismo vivo, em constante reinvenção.

Por que celebrar 120 anos depois

Celebrar os 120 anos da morte de Fernando Pessoa é celebrar a capacidade da língua portuguesa — e da literatura — de abarcar o múltiplo, o fragmentado, o contraditório. Pessoa inventou um modo próprio de ser plural, em que diversos eus convivem, dialogam, divergem — e fazem da incerteza, da dúvida existencial, da melancolia, da natureza, da cidade e do cotidiano matéria poética.

Em tempos em que identidade, subjetividade e dicotomias sociais são objeto de debate, a obra de Pessoa mostra-se absolutamente contemporânea. Sua heteronímia é talvez uma das mais poderosas metáforas para a multiplicidade do ser humano, das suas contradições, dos seus desejos e seus anseios.

Celebrar Pessoa, então, não é apenas reverenciar um clássico da literatura. É reafirmar a potência da escrita como espaço de liberdade, de invenção e de reinvenção. É permitir que cada pessoa — a cada leitura — se torne um heterônimo de si mesma.

Trechos essenciais de Pessoa

Autopsicografia (ortônimo — Fernando Pessoa)

“O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.”

Este poema é talvez a mais célebre “definição” do poeta: a noção de que o poeta “finge” — transforma emoção, dor ou sentimento numa forma literária, de modo que o leitor sinta “a dor que ele fingiu”.

O Guardador de Rebanhos — Heterônimo Alberto Caeiro

“Sou um guardador de rebanhos. / O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações.”
“Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido.”
“Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz.”

Caeiro é o “poeta da percepção”, da natureza, do imediato — sua poesia recusa simbolismos e metafísicas para valorizar o sensível e o concreto.

O Guardador de Rebanhos II (também de Caeiro)

“O meu olhar é nítido como um girassol. / … / Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do mundo…”

Uma celebração da renovação do olhar — sugerindo que a realidade se renova a cada instante e que o poeta “nasce” de novo para ela.

Tabacaria — Heterônimo Álvaro de Campos

“Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
“Janelas do meu quarto, / Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é …”

Este poema é um dos mais emblemáticos da modernidade literária em língua portuguesa — nele, o “eu” poético expressa angústia existencial, vazio, mas também mantém “todos os sonhos do mundo”: o encontro paradoxal entre o nada e o tudo, a desesperança e a utopia.

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